China domina 57 de 64 tecnologias críticas

O panorama da inovação tecnológica global passou por uma mudança sísmica. Longe da antiga bipolaridade, a China consolidou sua posição como a principal potência de pesquisa e desenvolvimento (P&D) do mundo. Um relatório recente e detalhado, o Critical Technology Tracker do Australian Strategic Policy Institute (ASPI), revelou que a China detém a liderança em pesquisa de alto impacto em 57 das 64 tecnologias críticas que definirão o poder econômico, militar e social nas próximas décadas.

Essa estatística surpreendente – que mostra os Estados Unidos na liderança em apenas sete áreas – não é um mero reflexo de volume de publicações, mas sim da qualidade e do impacto da pesquisa. O estudo analisou o percentual de publicações altamente citadas (o top 10% de publicações mais influentes) em áreas como Inteligência Artificial (IA), Robótica Avançada, Biotecnologia, Sensores Avançados e Energia Verde.

A Estratégia por Trás do Domínio

A ascensão chinesa não é acidental; é o resultado de uma estratégia de desenvolvimento nacional de longo prazo, como o plano “Made in China 2025” (MIC 2025). Essa política envolve investimentos estatais maciços, a integração rigorosa entre governo, indústria e academia, e a paciência para construir uma base de talentos vasta e altamente qualificada.

  • Investimento Massivo: O governo chinês tem direcionado trilhões de yuans para os dez setores estratégicos do MIC 2025, garantindo que suas instituições e empresas tenham os recursos para competir e superar centros de pesquisa ocidentais.
  • Controle da Cadeia: O foco na autossuficiência impulsionou a China a se tornar dominante na produção de componentes essenciais. Exemplos práticos incluem o domínio na produção global de baterias e painéis solares, e o avanço em chips de IA, mesmo sob sanções internacionais. A montadora BYD, por exemplo, já é a maior produtora mundial de veículos elétricos (VEs), um reflexo direto dessa prioridade.
  • Talento e Escala: O país produz o maior número de cientistas e engenheiros do mundo, consolidando a base de recursos humanos necessária para manter a vanguarda da pesquisa.

Implicações para o BRICS e o Brasil

O domínio tecnológico chinês é um fator de reordenação no cenário global, com implicações diretas para o bloco BRICS.

  • Cooperação Tecnológica: A China, como “locomotiva” científica do BRICS, está na posição de impulsionar a cooperação tecnológica entre os membros, oferecendo uma alternativa à dependência de tecnologias ocidentais, um tema recorrente nas cúpulas do bloco.
  • Inspiração para Inovação: O sucesso chinês em transformar pesquisa em capacidade de manufatura inspira outros membros. A Índia, por exemplo, também emergiu como um centro de excelência em pesquisa, classificando-se entre os cinco primeiros países em 45 das 64 tecnologias críticas analisadas, mostrando o crescente poder do Sul Global.

Em um cenário de competição acirrada, o mapa da inovação global, traçado pelo ASPI, sinaliza que o futuro tecnológico será cada vez mais moldado pelas decisões tomadas em Pequim, forçando outras nações a repensar suas estratégias de investimento em ciência e tecnologia.

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