A China é, inegavelmente, a potência mundial da tecnologia verde, dominando a fabricação e o custo de equipamentos essenciais para a descarbonização, como painéis solares, turbinas eólicas e baterias para veículos elétricos (VEs). Esse domínio impulsiona a transição energética em diversos países. No entanto, o fluxo de equipamentos e financiamento para o Sul Global – que inclui o Brasil e parceiros do BRICS – esbarra em um dilema crucial: a resistência em compartilhar o know-how e a propriedade intelectual (PI) que permitiram à China alcançar essa liderança.
O Fluxo de Produtos vs. O Fluxo de Conhecimento
A cooperação da China com países em desenvolvimento tem sido notável em termos de exportação de produtos e infraestrutura. Em 2024, as exportações chinesas de tecnologias limpas para o Sul Global somaram dezenas de bilhões de dólares.
- Exemplo Prático (Brasil): A empresa chinesa de energia eólica Goldwind instalou uma base de montagem na Bahia, enquanto fabricantes de VEs firmam joint ventures que trazem tecnologias avançadas de montagem e baterias, além de capacitar engenheiros locais.
- Exemplo BRICS (Índia/África): Instalações de sistemas de bombeamento solar desenvolvidos na China têm sido implementadas em países como Índia, Paquistão e na África, demonstrando o uso de tecnologia chinesa para aumentar o acesso à energia limpa em áreas remotas.
Essa transferência de produtos é vital, pois reduz o custo global da transição energética. A rápida expansão da produção chinesa de módulos fotovoltaicos, por exemplo, fez o custo da energia solar despencar.
O Nó da Propriedade Intelectual
Apesar de ser uma força motriz na descarbonização, a China enfrenta críticas por priorizar a venda de produtos finalizados em vez de transferir o conhecimento tecnológico que permitiria aos países em desenvolvimento construir suas próprias indústrias verdes.
- Protecionismo de P&D: A China investiu décadas de planejamento estatal e subsídios para construir sua vantagem tecnológica. Naturalmente, há uma relutância em liberar o acesso à PI e aos processos de fabricação avançados, que são vistos como ativos estratégicos e fontes de futura competitividade global.
- Risco de Dependência: O Sul Global, incluindo membros do BRICS como o Brasil, deseja não apenas importar painéis solares, mas aprender a fabricá-los para garantir sua própria soberania energética e criar empregos locais. Especialistas alertam que a importação maciça sem transferência de tecnologia pode criar uma nova forma de dependência, trocando a dependência de combustíveis fósseis pela dependência de tecnologia chinesa.
O Papel do BRICS no Debate
O dilema da transferência de tecnologia é um tema central nas negociações climáticas e no diálogo do BRICS. Enquanto a China demonstra um compromisso claro em financiar projetos verdes no exterior, o bloco precisa usar sua influência coletiva para exigir que a cooperação avance da simples exportação para a transferência de capacitação e know-how. Esse passo é fundamental para que o Brasil e seus parceiros não apenas atinjam suas metas de descarbonização, mas também se tornem atores na produção global de tecnologia verde.
Links de empresas ou instituições citadas:
- Goldwind: https://www.goldwind.com
- BYD: https://www.byd.com/
- COPPE/UFRJ: https://coppe.ufrj.br/ (Referência a instituições brasileiras que buscam autonomia tecnológica)
- ONU: https://www.un.org/ (Referência ao fórum de debate global sobre o clima)

