Explore a geopolítica dos chips e o desafio chinês aos EUA

A produção de semicondutores de ponta se tornou o campo de batalha mais crítico da geopolítica global. Chips avançados, medidos em nanômetros (nm), são o pilar da Inteligência Artificial (IA), da computação de alto desempenho e da próxima geração de dispositivos móveis. Nessa disputa, qualquer avanço chinês em chips de 7nm ou 5nm é uma manchete global porque ele ataca o coração da estratégia dos Estados Unidos de conter a ascensão tecnológica da China.

Na editoria “Conceitos e tendências”, a dinâmica é clara: os EUA impuseram sanções rigorosas para cortar o acesso de empresas chinesas, como a Huawei e a fabricante SMIC, a softwares, propriedade intelectual e, principalmente, a máquinas essenciais de litografia, como as de UV Extremo (EUV), monopolizadas por empresas ocidentais. O objetivo de Washington é manter a China, no mínimo, cinco anos atrás da tecnologia de ponta (que já opera em 4nm e avança para 3nm).


O Salto Desafiador da China

Em um movimento que surpreendeu analistas e autoridades americanas, a China demonstrou uma resiliência notável ao lançar smartphones com chips avançados fabricados localmente:

  • O Caso Kirin 9000S: O lançamento do chip Kirin 9000S no smartphone Huawei Mate 60 (em 2023) confirmou que a SMIC, a maior fundição de chips da China, conseguiu fabricar processadores na litografia de 7nm.
  • Desafio às Sanções: Embora a tecnologia de 7nm esteja atrasada em relação aos chips ocidentais de 4nm, o fato de a China ter atingido essa marca com maquinário mais antigo (como os scanners DUV, em vez dos proibidos EUV) e técnicas de “improviso” ou padrões múltiplos, é uma prova de seu esforço para criar um ecossistema doméstico de semicondutores. O ex-vice-presidente da TSMC, inclusive, sugeriu que é “simplesmente não é possível” para os EUA frear completamente o avanço chinês.
  • Olhando para 5nm: O próximo objetivo é o processo de 5nm. Analistas acreditam que a SMIC possui as ferramentas capazes, mas a transição exigirá adaptações complexas que podem, inicialmente, afetar o rendimento da produção.

As Implicações para o BRICS e o Sul Global

A disputa por soberania tecnológica cria um contexto geopolítico favorável à cooperação entre os países do Sul Global, onde o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e seus parceiros) se torna um palco central para a nova agenda digital:

  • Soberania Tecnológica: As sanções dos EUA contra a China, percebidas por muitos no bloco BRICS como uma forma de “imperialismo e colonialismo tecnológico”, servem de catalisador para a busca por autonomia tecnológica em todos os países emergentes.
  • Cooperação Tecnológica: O bloco BRICS tem intensificado a cooperação para fortalecer a produção local de tecnologia, buscando caminhos para contornar a dependência de infraestruturas e softwares controlados pelas grandes potências ocidentais.
  • IA Soberana: A China está usando as restrições como combustível para desenvolver soluções domésticas de Inteligência Artificial mais leves e velozes, como o Ascend 920 da Huawei, preenchendo as lacunas deixadas pela proibição de exportação de chips de IA da Nvidia.

A corrida por chips avançados define quem liderará a próxima onda de inovação. O progresso chinês em 7nm, atingido sob as mais severas restrições, reforça o cenário de competição tecnológica e mostra que a estratégia de contenção dos EUA enfrenta resistências significativas, acelerando a busca por alternativas e autonomia em todo o Sul Global.

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