Enquanto o mundo se concentra na disputa por chips avançados de 5nm para a Inteligência Artificial (IA), uma revolução silenciosa e igualmente crucial está ocorrendo na China: a busca por autossuficiência total em chips de legado, aqueles produzidos em litografias mais antigas, como 28nm a 90nm. Esses chips mais básicos, mas de alto volume, são a infraestrutura invisível que sustenta a maior parte da indústria de manufatura moderna, e o domínio chinês nesse setor está redefinindo o comércio global.
É vital entender que esses semicondutores não são menos importantes; eles são os componentes críticos que controlam carros, eletrodomésticos, dispositivos médicos e, principalmente, o vasto ecossistema de Internet das Coisas (IoT). Ao garantir o suprimento doméstico desses itens, a China fortalece sua soberania industrial e cria uma vantagem estratégica massiva em setores de crescimento, como o de Veículos Elétricos (EVs).
O Poder da Autossuficiência em Chips de Volume
A estratégia chinesa, apoiada por subsídios bilionários, visa inundar o mercado com chips de segunda linha (em termos de densidade de transistores), mas de primeira linha em termos de custo-benefício e volume.
- Infraestrutura para a Manufatura: Setores como o automotivo, que utilizam chips de 28nm e 40nm para gerenciamento de bateria, sistemas de segurança e infoentretenimento, dependem criticamente do fornecimento estável. A crise de chips durante a pandemia demonstrou o risco de cadeias de suprimentos fragmentadas. A autossuficiência chinesa garante que suas fábricas de manufatura, que produzem a maior parte dos bens de consumo e industriais do mundo, não parem.
- Domínio de EVs e IoT: A China é líder global na fabricação de Veículos Elétricos e na expansão da IoT. Carros elétricos, drones e sensores exigem milhares de chips de legado. Ao produzir esses componentes localmente e em larga escala, a China consegue otimizar custos e acelerar a inovação em seus próprios produtos, tornando-os mais competitivos globalmente.
- Ameaça de Excesso de Oferta: Alguns analistas preveem que o investimento chinês pode levar a um excesso de oferta global de chips de legado. Embora isso possa reduzir os preços e beneficiar o consumidor final, representa uma pressão de concorrência massiva sobre fabricantes de outros países.
O BRICS como Plataforma de Soberania Industrial
O movimento de autossuficiência da China não é isolado; ele está em linha com a agenda de soberania tecnológica e industrial do BRICS:
- Cooperação Industrial: A China busca ampliar a cooperação industrial com o BRICS em áreas como IA e energia limpa. Ao dominar a produção de chips essenciais, Pequim pode se posicionar como um fornecedor confiável e estratégico para os parceiros do bloco.
- Redução da Dependência Externa: A intenção é reduzir a dependência de hubs tradicionais (como o Vale do Silício) e fortalecer o protagonismo econômico do Sul Global. O domínio de componentes básicos, que formam a infraestrutura da próxima geração de fábricas e cidades inteligentes, é fundamental para essa virada estratégica.
A batalha pelos chips mais avançados é o confronto de manchete, mas a vitória no volume de chips de legado é o que garante a solidez e a competitividade global da indústria chinesa, com profundas implicações para as cadeias de valor em todo o mundo.

